06 de Novembro de 2007 - 14:35
SAFRA 07/08
Terras para quem quer plantar

Arrendamento no Mato Grosso é retomado em contratos de até 10 anos, garantindo área para quem quer expandir e capital àqueles que pretendem voltar a produzir.



Procuram-se terras para arrendar. Se fosse usual no mercado de arrendamento agropecuário as imobiliárias espalharem anúncios, esse seria o mote de divulgação no estado mato-grossense. Segundo o corretor Ari Strejevitch, em 2006, a área total de propriedades arrendadas por uma imobiliária da região ficou em torno de 7 mil hectares. Em 2007, o número já ultrapassa a marca de 40 mil hectares.

Tamanha procura fez essa modalidade de negócio assimilar novas características e desdobramentos. Uma delas foi o surgimento de prazos bem diferentes dos quatro ou cinco anos habituais. Vários acordos de "tiro curto" (com a duração de um ano-safra) foram e continuam sendo firmados. "Legalmente, os contratos com duração inferior a três anos são chamados de locação, mas se convencionou tratá-los também por arrendamento", informa o supervisor do Campo Norte, divisão da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja), Diogo Guimarães Molina.

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As locações são áreas praticamente prontas para o cultivo (algumas vêm até corrigidas com calcário) na qual o dono não tem a intenção de "amarrar" a terra por muito tempo, seja porque quer vender, seja pelo desejo de voltar a produzir em um breve período de tempo. Já o perfil do arrendatário que se sujeita aos períodos bem estreitos de contratos, em geral, é de quem tem fazendas próximas e visa incrementar a escala de produção ou demanda de mais área para cumprir contrato. "Também existem aqueles que, como neste ano, querem pegar carona no bom momento de preços e emprestam mais alguns hectares de propriedades onde os donos por alguma razão não semearam", aponta Molina.

Na outra ponta, existe quem busque contratos mais longos (até pelo dobro do tempo médio) como a Guimarães Agrícola. Como o grupo tem por princípio padronizar a forma de gestão de cada propriedade, a fim de garantir ganhos de produtividade, os contratos mais longos acabam se tornando mais atraentes. "Empregamos o próprio maquinário e investimos muito na terra, logo é importante que firmemos contratos mais extensos, de até 10 anos", explica o presidente do grupo Orcival Gouveia Guimarães.

Anos de crise

"Em contrapartida”, destaca Guimarães, “em nossas cláusulas permitimos uma ressalva autorizando o dono a retomar a terra antes do encerramento do período de arrendamento, contanto que reembolse proporcionalmente as benfeitorias feitas por nós na propriedade.” Hoje, metade da produção de grãos do grupo é em terras arrendadas e a idéia é de que essa proporção atinja 80%. "A principal vantagem do arrendamento é eximir o arrendatário da necessidade de preparar uma terra nunca antes explorada para a agricultura, o que implica em questões ambientais", avalia Guimarães.

Para o gerente técnico da Aprosoja, Luiz Nery Ribas, o arrendamento no Mato Grosso foi o responsável pela manutenção da área de plantio nos anos de crise. Ele ainda acrescenta que, com a provável consolidação de um quadro mais favorável ao campo (a exemplo de 2007), alguns produtores que deixaram a lavoura voltem a dispor de recursos para plantar.

"O arrendamento no Mato Grosso ilustra bem a situação de grandes grupos demandando mais terras com a finalidade de ganhar escala e produtores médios, que acumularam muitas dívidas, obtendo um fôlego financeiro sem vender a propriedade", explica Nery. Há também aqueles que arrendam a terra por estarem cansados da intensa rotina, bem como quem está ampliando a área de atuação em outras regiões do estado ou fora dele.

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Foi pensando em quitar todos os débitos acumulados que o produtor Valdir Longo, no início deste ano, arrendou as suas propriedades (2,4 mil hectares divididos em três áreas localizadas na região entre os municípios de Vera e Sorriso). Uma área de 400 hectares e outra de 700 hectares foram arrendadas por quatro anos, sendo que o preço do arrendamento ficou entre 6 e 7 sacas de soja por hectare. Já a propriedade de 1,3 mil hectare foi arrendada por 5 anos e por um valor de 8 sacas de soja por hectare.

"Nos três contratos ficou estipulado que só poderiam ser cultivados soja e milho, visto que para o algodão o empréstimo da terra é mais caro (média de 10 sacas de soja por hectare). Além disso, a mão-de-obra existente permaneceria nos locais e o arrendatário assumiria o financiamento do maquinário", esclarece Longo.

Mesmo com a valorização dos produtos agrícolas em 2007, Valdir Longo acredita que tomou a decisão mais acertada. "Estava sem condições financeiras para plantar, mas planejo voltar para a terra se na época em que vencerem os contratos a agricultura estiver valendo a pena", afirma.

Na ponta do lápis

Situação completamente oposta à de Valdir Longo é a do produtor Leandro Dolenkei, que planta 100% da sua produção em terras arrendadas. Ele se tornou arrendatário em 1997 e, desde então, só ampliou a quantidade de hectares cultivados. Em 10 anos, ele passou de uma área de cultivo de 460 hectares para 1,1 mil hectares. A opção pelo arrendamento veio após um duro golpe, quando Dolenkei perdeu todo o montante que tinha e precisou abraçar o arrendamento para garantir o sustento.

Mesmo aumentando o custo de produção com a quantia de sacas separadas para pagamento do arrendamento, Dolenkei vem construindo o seu patrimônio devido à forma como equaciona investimento e margem de lucro.

Anualmente, ele analisa o custo de produção e calcula em cima do valor uma margem de lucro entre 10% e 15%. "O primeiro fundamento que é necessário ter em mente quando se torna arrendatário é o fato de não poder errar no plantio, compra de insumos ou na comercialização da safra. Também não se pode esperar para pagar conta. Travo a safra dentro de um preço compatível com certa margem de lucro", ensina.

Ele ainda pretende comprar terra, mas isso só ocorrerá quando custear toda a produção. "Não dá para se endividar porque os preços oscilam muito e a mesma dívida que em um determinado momento vale mil sacas de soja pode, em outro momento, saltar para 1,5 mil", exemplifica.

Por Magaléa Mazziotti
  
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